Jefrey Andrade plays Sergio de Vasconcellos-Correa: Complete Guitar Works
A primeira gravação integral da obra para violão de Sérgio de Vasconcellos-Corrêa.

O álbum Jefrey Andrade plays Sergio de Vasconcellos-Correa: Complete Guitar Works apresenta a primeira gravação integral dedicada à produção para violão solo do compositor brasileiro Sérgio de Vasconcellos-Corrêa.
Resultado de uma pesquisa desenvolvida durante seu doutorado em Performance Musical, o projeto busca revelar e difundir esse repertório a partir de uma abordagem de performance culturalmente informada, considerando não apenas a partitura, mas também os contextos históricos, culturais e estéticos relacionados ao compositor e sua obra.
Sérgio de Vasconcellos-Corrêa e sua obra para violão
Ao longo do século XX, consolidou-se no Brasil uma linhagem de compositores que atuaram como mediadores entre práticas musicais populares e a tradição da música clássica ocidental, processo associado ao movimento nacionalista. No repertório violonístico, essa orientação já se manifesta na obra de nomes como Villa-Lobos, Guarnieri, Guerra-Peixe e outros. É nesse contexto que se insere o compositor e pianista Sérgio de Vasconcellos-Corrêa (1934), formado no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e posteriormente orientado por Camargo Guarnieri durante doze anos, período que marcou a consolidação de sua técnica composicional. Sua trajetória artística se desenvolve em meio aos debates estéticos desencadeados pelo modernismo de 1922 e intensificados nas décadas seguintes, quando se confrontaram projetos nacionalistas e tendências vanguardistas ligadas ao dodecafonismo. Embora próximo da vertente associada a Guarnieri, Vasconcellos-Corrêa evita a identificação programática com o nacionalismo, preferindo compreender a presença de elementos brasileiros em sua obra como expressão de pertencimento cultural e experiência vivida, e não como adesão deliberada a um projeto estético.
O início de Sérgio de Vasconcellos-Corrêa na escrita para violão solo ocorreu a partir de um encontro com Isaías Sávio, que deu origem a Valsa-choro n°1, composta em 1959. Nessa peça, a influência de Guarnieri é evidente, a ponto de dialogar diretamente com a Valsa-Choro n° 1 do próprio mestre. A afinidade estilística se explica pelo período de convivência entre professor e aluno, já que, à época dessa composição, Sérgio estudava com Guarnieri. No ano seguinte, 1960, Sérgio transcreve para violão a Moda (Cantilena). Em 1960 e 1961, Sérgio compõe a Suíte Infantil n°1 e Variações sobre um tema de Cana-fita, respectivamente. Ambas são obras originais para piano, aqui transcritas por mim para violão com adaptações mínimas, uma vez que a escrita original se adapta perfeitamente ao violão, inclusive por estar escrita somente em clave de Sol. A Suíte Infantil é um conjunto de cinco miniaturas em caráter explicitamente nacional: Acalanto, Chorinho, Modinha, Moda Caipira e Baião. As Variações sobre um tema de Cana-fita seguem um caminho próximo, com variações baseadas na valsa, modinha, baião e outros. O tema de Cana-fita integra o conjunto de materiais enviados a Mário de Andrade entre 1926 e 1928 por colaboradores que contribuíram para a elaboração do Ensaio sobre a Música Brasileira.
Em 1973, já exercendo atividade docente em composição, Vasconcellos-Corrêa finaliza a Sonatina para Violão Solo, em três movimentos, dedicada a Henrique Pinto. Trata-se de uma obra de maior densidade formal, utilizando até mesmo a polimodalidade por alguns momentos, em meio a referências a práticas musicais brasileiras, perceptíveis sobretudo no cateretê do terceiro movimento. Em 1986 surgem as Seis Peças para Violão, organizadas como uma sequência de gêneros brasileiros: Ponteando, Jongo, Valsa de antigamente, Moda, Aperreado (baião) e Manhoso (choro). O conjunto apresenta dificuldade técnica progressiva, iniciando por peças que exploram cordas soltas e avançando até um choro com passagens polifônicas mais exigentes. Entre 1991 e 2000, Sérgio escreve um conjunto de Cinco Estudos para violão solo, culminando no Estudo n. 6 (Estudos gêmeos para dois violões), síntese polifônica obtida pela execução simultânea dos Estudos 4 e 5. O Estudo n°1 “Maneiroso” é um choro com uma scordartura incomum, com a sexta corda afinada em Fá. No Estudo n° 2, Sérgio de Vasconcellos-Corrêa concebe a obra como um estudo de agilidade associado à exploração da ressonância violonística, estruturado a partir de uma textura fragmentada, na qual arpejos se distribuem de forma descontínua entre diferentes registros do instrumento. O Estudo adota uma linguagem que se distingue do contexto mais amplo da produção violonística de Sérgio de Vasconcellos-Corrêa: não se observam aqui procedimentos recorrentes em outras obras do compositor, tampouco características “nacionalistas”, comparável ao que se deixa entrever no restante de sua produção para violão. O Estudo n° 3 configura-se igualmente como estudo de agilidade, agora centrado em escalas e cromatismos organizados em um motto perpetuo que, em diversos trechos, se desdobra em sugestões de polifonia implícita. Já os Estudos n° 4 e n° 5 partilham caráter e materiais próximos, com melodias de feição seresteira ocultas em texturas mais densas. Nessas duas peças, sobretudo no Estudo n° 5, torna-se evidente a assimilação de procedimentos bachianos, perceptíveis na condução polifônica. Em 2010, Sérgio compõe O Canto do Piaga, inicialmente concebida como acompanhamento para a declamação do poema homônimo de Gonçalves Dias. Posteriormente, o próprio compositor passou a considerá-la uma peça autônoma para violão solo. Por fim, a Pendenga, de 2020, é uma peça cujo título é referência à prática do repente, desafio ou cantoria nordestina. A composição organiza-se como um tema com sete variações que explicita uma cena de performance, definida pelo próprio compositor como desafio entre dois violeiros.